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Japão gasta US$ 73,7 bilhões para sustentar o iene, mas impacto segue limitado
O Japão mobilizou um volume de recursos equivalente ao PIB de um país de médio porte para tentar conter a desvalorização do iene — e, ainda assim, a moeda continuou cedendo.
Entre 28 de abril e 27 de maio, o Ministério das Finanças realizou intervenções diretas no câmbio que somaram 11,7349 trilhões de ienes, cerca de US$ 73,7 bilhões. Trata-se da primeira atuação confirmada no mercado desde 2024 e, de longe, a mais agressiva.
Mesmo com esse gasto histórico e com o Banco do Japão (BOJ) elevando a taxa básica ao nível mais alto em mais de três décadas, o iene segue perto de 160 por dólar, patamar que não era visto há quatro décadas.
Diferencial de juros segue como força dominante
A principal pressão continua sendo o diferencial de juros em relação ao resto do mundo. Mesmo após a alta do BOJ, as taxas japonesas permanecem bem abaixo das praticadas nos EUA e na Europa. Isso mantém o iene como moeda de financiamento de operações de carry trade, em que investidores tomam empréstimos baratos em ienes e direcionam recursos a ativos de maior rendimento no exterior. Quanto mais essas operações se espalham, maior a venda de ienes e mais fraca tende a ficar a moeda.
A intervenção foi parcialmente viabilizada com a liquidação de ativos externos. O Japão vendeu cerca de US$ 75,6 bilhões em títulos e outros papéis, incluindo uma parcela relevante de Treasurys, valor que praticamente espelha a escala da intervenção.
Em 3 de julho, a ministra das Finanças, Satsuki Katayama, reforçou que as autoridades "responderão de forma apropriada a qualquer momento, conforme necessário". A primeira-ministra Sanae Takaichi fez declarações na mesma linha; segundo relatos, ambas mantêm comunicação próxima com autoridades dos EUA sobre a estratégia cambial.
Por que o iene segue pressionado
A economia japonesa depende fortemente de importações de energia e alimentos, que ficaram mais caras nos últimos anos. Um iene mais fraco eleva ainda mais o custo dessas compras, alimenta a inflação doméstica e aumenta a pressão por novas intervenções.
O tamanho do mercado também limita o efeito de ações pontuais. O câmbio global movimenta cerca de US$ 7,5 trilhões por dia. Os US$ 73,7 bilhões gastos em um mês, embora excepcionais para o Japão, representam apenas uma fração do fluxo que circula no mercado em qualquer semana.
Efeito sobre cripto e sobre os juros dos EUA
Operações de carry trade, nas quais investidores captam em ienes a baixo custo e buscam ativos mais arriscados, historicamente contribuem para a liquidez que chega ao mercado cripto. Quando o Japão intervém e o iene se fortalece de forma repentina, essas posições tendem a ser desmontadas: traders correm para recomprar ienes e vendem os ativos adquiridos com os recursos tomados emprestados, incluindo Bitcoin e outras moedas digitais.
O Bitcoin tem mostrado força relativa frente ao dólar, mas perdeu desempenho quando precificado em ienes, refletindo o impacto das mudanças no carry trade sobre o mercado cripto.
A venda soberana de US$ 75,6 bilhões em títulos do governo dos EUA em um único mês também tende a pressionar os rendimentos dos Treasurys para cima. Juros mais altos nos EUA costumam fortalecer o dólar e criar um ambiente mais desafiador para ativos sem rendimento, como ouro e Bitcoin.